“Wicked: Parte 2” consolida a força do musical no cinema | Crítica
Assim que as luzes se apagam e o cinema é tomado pelo silêncio sepulcral gerado pela ansiedade causada pelos doze meses de espera pela parte dois desse fenômeno musical transportado para as telonas – por Jon M. Chu – nos deparamos com a construção da icônica estrada de tijolos amarelos, tão relevante e emblemática desde “O Mágico de Oz” (1939).
Nessa cena já encontramos uma Oz totalmente diferente da cidade descrita por Dr. Dillamond (Peter Dinklage) na primeira parte desse mesmo filme. A construção em questão está sendo feita através da exploração física de animais que outrora ocupavam cargos de prestígio na sociedade e, diante dessa brutalidade perversa, Elphaba (Cynthia Erivo), a bruxa verde que todos ansiavam por ver, surge nos céus para fazer justiça pelas pobres criaturas. E a empolgação, ainda que silenciosa do público, se faz notável.
Em contrapartida, na Cidade das Esmeraldas, vemos a popular Glinda (Ariana Grande) rendida aos luxos e rodeada pela sua legião de adoradores se preparando para a inauguração da estrada de tijolos amarelos e para o anúncio surpresa de seu noivado com o recém nomeado capitão da Guarda dos Ventos, Fiyero (Jonathan Bailey). Contudo, antes dessa aparição pública acontecer, Madame Morrible (Michelle Yeoh) a presenteia com a tão almejada varinha de condão e seu mais novo meio de transporte – a bolha – precedida pelo conhecido jogo político e discurso manipulador que diz que o povo precisa acreditar que Elphaba não é a única bruxa capaz de voar pelos céus de Oz.

O filme segue mostrando essa dualidade entre os dois mundos apresentados e a transformação dos sentimentos das personagens no decorrer da conclusão dessa história. De um lado temos a floresta e o soturno esconderijo de Elphaba e, do outro, temos todo o glamour e brilho que seguem sendo tão naturais à Glinda.
Esse choque entre os dois mundos é evidenciado em diversos momentos e, um dos meus favoritos é o casamento entre Glinda e Fiyero. Enquanto vemos o corredor que antecede o altar impecavelmente decorado, por exemplo, vemos, na sequência, o corredor mal iluminado e macabro onde Elphaba encontra os animais enjaulados e escondidos pelo Mágico de Oz (Jeff Goldblum). A câmera segue Glinda deslumbrante descendo as escadas em direção ao seu pretendente e, em seguida, vemos Elphaba incrédula descendo as escadas do esconderijo em direção às jaulas. Esse paralelo segue quando vemos as reações efusivas das testemunhas na cerimônia e o olhar de terror dos animais presos em espaços minúsculos de metal e em vários outros momentos.
Enquanto o primeiro filme detalhou o desenrolar da história para culminar no instante em que Elphaba se torna a inimiga número um de Oz e Glinda é acolhida pelo Mágico e pela Madame Morrible, seguimos aqui com conflitos densos e pulsantes na jornada de autodescoberta das protagonistas e dos demais personagens. A essência de Wicked sempre foi mostrar que a ideia que permeia nosso conceito de bem e mal é mais subjetiva e difícil do que aparenta ser e, aqui, nos deparamos com essa complexidade durante suas mais de duas horas de duração.
No mesmo filme vemos Glinda ser traída e se descobrir completamente entregue à maldade ao sugerir que a irmã de Elphaba, Nessarose (Marissa Bode), seja usada como isca para atraí-la para uma armadilha arquitetada junto ao casal de antagonistas, mas vemos também seu arrependimento posteriormente. Da mesma forma somos apresentados a uma Elphaba extremamente vulnerável e entregue à paixão logo renunciar a bondade que possuía em si e vestir a máscara – nesse caso, mais do que nunca, o chapéu – de Bruxa Má do Oeste que lhe foi ofertada pelo povo de Oz.
Em ambos os casos, as atuações entregues são extremamente críveis e emocionam o espectador muito satisfatoriamente. Ainda acompanhamos a transformação de Nessa em uma governadora impiedosa e egoísta e a substituição da inocência de Boq (Ethan Slater) por ódio e sede de vingança. E esse ódio é nitidamente pulsante na cena em que ele expõe a situação do filhote de leão aos caçadores de bruxa e lança um olhar aniquilador para Glinda, que assiste a tudo do alto de sua torre.
A química entre o triângulo amoroso formado pelas bruxas Boa do Norte, Má do Oeste e o Príncipe Winkie é inegável e a amizade que eles levaram para a vida e mostraram durante as entrevistas e nos bastidores das filmagens só reforçaram esse entrosamento quando assistimos as cenas compartilhadas por eles. A interpretação de Jonathan e Cynthia e a atmosfera criada para a cena de “As Long As You’re Mine” é sublime e de uma delicadeza ímpar.
Há vários momentos visualmente deslumbrantes e a criação do tornado responsável pela morte de Nessarose é, sem dúvida nenhuma, um deles. Michelle Yeoh usa um figurino com mangas longas e esvoaçantes e a movimentação que ela faz com as mãos, quase como uma coreografia, enquanto o tornado começa a ganhar forma na cidade é hipnotizante.
A potência das músicas poderia ser considerada um espetáculo à parte, mas são tão bem costuradas à trama que mal percebemos quando são inseridas. Em “Wicked: Parte 2”, Stephen Schwartz, dono de uma carreira de mais de quatro décadas e compositor dessa obra, volta ao seu papel compondo mais duas canções inéditas para a dupla de protagonistas.
Elphaba canta “No Place Like Home”, em um momento emocionante onde ela tenta convencer os animais, aflitos e preocupados com um futuro nada promissor, a permanecerem em Oz e Glinda, por sua vez, canta “Girl in the Bubble”, num momento em que encontra-se imersa na grandiosidade e vazio de sua torre e rodeada de vários reflexos de si mesma. Confesso que eu esperava músicas mais grandiosas e impactantes do que essas, mas o caminho escolhido aqui foi mais introspectivo e acabou funcionando para a proposta.
E, se vamos falar de grandes momentos musicais, é mandatório citar a performance de tirar o fôlego de Cynthia ao interpretar “No Good Deed”. Sua performance foi tão arrebatadora que me arrancou lágrimas e me deu arrepios. E o que Jon fez ao transpor essa cena dos palcos à grande tela foi formidável. No teatro víamos Elphaba entoar o conhecido encantamento “eleka nahmen”, praticamente, num fundo preto e, agora, temos um cenário minuciosamente detalhado e digno da importância e imponência que o momento sempre pediu.

A condução dos caminhos escolhidos por Jon M. Chu não poderia ser mais acertada e os minutos a mais que a obra cinematográfica ganhou foram muito bem aproveitados. Alguns acontecimentos precisavam de mais tempo para se desenvolverem, como a chegada de Dorothy à Oz, por exemplo. E algumas pequenas mudanças foram feitas para que a história fizesse mais sentido.
“Wonderful”, dueto interpretado por Elphaba e o Mágico, agora ganhou um reforço de Glinda. Desse modo, é mais factível ver Elphaba se render e oferecer um novo começo ao Grande e Poderoso Mágico de Oz. E a conhecida pose no poster teatral de Wicked, onde observamos Glinda cochichando no ouvido de Elphaba também foi trazida ao filme, como uma singela homenagem ao público que também é fã da obra.
E partindo para a conclusão desse texto, não tem cabimento algum não citar a canção que dá nome a essa aguardada sequência, “For Good”. Durante a execução dessa música, além das vozes perfeitamente combinadas de Ariana e Cynthia, foi possível ouvir também os soluços baixos causados pelo choro de grande parte da audiência (e, obviamente, não me excluo dessa parcela).
A jornada de Glinda e Elphaba foi notavelmente construída, chegando exatamente aonde se propôs desde o começo: no coração de cada um que ali estava. E para além dessa obra de arte cinematográfica, fomos presenteados também com umas das trocas de “eu te amo” mais carregadas de sentimento dos últimos tempos.
Os temas propostos pela história são importantes, urgentes e atuais. Não à toa, o musical chegou à Broadway em junho de 2003 e segue em cartaz até os dias de hoje, ininterruptamente. Já no Brasil, seguimos com a sua terceira montagem para os palcos e as protagonistas, Fabi Bang e Myra Ruiz, que também são as dubladoras de Glinda e Elphaba, seguem nesses respectivos papeis desde 2016.

“Wicked: Parte 2” chega aos cinemas no dia 20 de novembro e promete seguir emocionando o público, como aconteceu em novembro de 2024. A espera que parecia infindável chegou ao fim e a pequena mudança no final desse filme enche os corações dos conhecedores da obra original de esperança e alegria. Definitivamente, uma grata surpresa.









